Um ambiente de negócios próspero depende de responsabilidade nos gastos públicos

Um ambiente de negócios próspero depende de responsabilidade nos gastos públicos

Updated: 5 days, 52 minutes, 27 seconds ago

Um ambiente de negócios próspero depende de responsabilidade nos gastos públicos

O executivo Enilson Sales tem experiência em postos de renomadas organizações dos setores automobilístico e financeiro, casos de Webmotors, Renault, Mitsubishi e ABN-Amro Brasil. Com formação em administração de empresas, o sócio da Sales 7 Consultoria conhece bem os desafios no caminho do empresariado e de entidades setoriais, a exemplo dos enfrentados na Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), a qual preside. O também engenheiro mecânico tem sob a sua tutela 28 associações regionais que congregam 48 mil revendedores de veículos seminovos e usados pelo Brasil. Um mercado que movimentou R$ 400 bilhões em 2021 e comercializou 15,1 milhões de automóveis, quase cinco vezes mais que o segmento de novos (3,4 milhões de unidades no total ou 2,1 milhões apenas de carros). Já de olho em 2023, Sales cobra responsabilidade do governo eleito em relação ao teto de gastos para evitar problemas no futuro. “Nunca vi chover dinheiro.”

DINHEIRO – Como está o desempenho do setor desde a pandemia?
ENILSON SALES – Em 2019, a média de vendas de veículos era de 52 mil a 53 mil unidades por dia útil. Nos dois primeiros meses de 2020, o setor batia em 55 mil a 56 mil negócios diariamente. De repente todos os mercados e as lojas fecharam. Caímos para 9 mil vendas, que só foram efetivas porque, na realidade, já estavam negociadas do mês anterior.

E qual foi a saída?
Rapidamente o setor se reorganizou, olhando para um caminho que sabia que existia, mas no qual trafegava pouco: o digital. Aí o mercado cresceu. Subiu e fechou dezembro [2020] em 72,5 mil vendas. Foi o pico. Abrimos 2021 superanimados. Batemos recorde sobre recorde mês a mês até chegarmos a agosto com 65,4 mil carros comercializados diariamente. Mas aí…

O que aconteceu?
Desconsideramos o fato de que faltava veículo zero quilômetro, e por ene razões. A principal era a falta de componentes eletrônicos, principalmente semicondutores. Diante disso, o carro seminovo começou a ficar muito caro [valorização média de 7%]. E aquela velocidade de negócios começou a diminuir. Até que em dezembro [2021] passamos a negociar menos unidades do que em 2020. Em 2022, a partir de abril, o setor começou suavemente a decolar. Poderíamos ter uma recuperação muito melhor caso o segmento de novos não continuasse impactado pelos componentes eletrônicos que hoje ainda faltam.

Outras razões afetaram o comércio de seminovos e usados?
Uma delas foi a polarização das eleições. De repente o Brasil inteiro voltou todas as suas atenções, esforços e energias para discutir quem era o melhor ou quem era o menos pior. Isso tornou o ambiente de negócios muito frágil. E esse debate não acabou por completo, porque a eleição terminou extremamente complicada em termos de números. Usando a linguagem das pesquisas, terminou no empate técnico [não é o que diz a lei, já que até um empate no número de votos teria como vencedor o candidato mais velho].

E…
Esse empate técnico faz com que o País tenha visões diferentes, conceitos diferentes e ainda não olhe todo mundo para uma direção só. Então, tem gente que está vindo e tem gente que está indo. E nesse cenário começamos a perder velocidade no nosso setor. Fechamos outubro e abrimos novembro com 55,3 mil veículos comercializados por dia útil, menos que os 58 mil de outubro do ano passado, que os 69 mil de 2020 e que os 58 mil de 2019. Isso não é dramático, mas mostra o quanto essa polarização mais a guerra [invasão da Ucrânia pela Rússia] tornaram o ambiente de negócios desfavorável temporariamente.

Ao analisar o ano inteiro, qual é a expectativa?
A perspectiva do setor é comercializar entre 13 milhões e 13,5 milhões de carros seminovos e usados. Já é uma quebra significativa em comparação aos 15,1 milhões do ano passado.

A questão dos semicondutores, que impacta o segmento de novos, só deve se normalizar a partir do segundo semestre de 2023. Como enxerga esse cenário para o mercado de seminovos e usados?
Como o carro zero quilômetro continua com preços absurdamente altos, e não vai cair, o que foi um problema para os usados agora é uma oportunidade, já que vira uma alternativa mais viável para a troca.

O senhor falou em até 13,5 milhões de negócios em 2022. O que pode impedir que isso se concretize?
Nas condições normais de temperatura e pressão, vamos chegar em 2023 com 15 milhões ou próximo disso. Mas tem um cenário que é o seguinte: esse novo governo vai continuar falando para o povo, mas vai praticar uma política econômica responsável ou vai ficar falando para o povo e praticar uma política populista? O cara [presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva] está querendo garantir apoio para se perpetuar? Mas eu não quero discutir isso.

Por quê?
Sou um cidadão que cumpre as leis. Mas sou um empresário. E estou olhando para o cara que fez uma declaração e a bolsa [de valores] caiu três pontos. Bom, então é assim: se ficar no discurso para ganhar apoio, para ser simpático, para ser bonitinho, o mercado absorve. Agora, se for partir para uma irresponsabilidade de gastos públicos monumental… Tenho 65 anos e nunca vi chover dinheiro. Um ambiente de negócios próspero depende de responsabilidade nos gastos públicos.

Está confiante?
Sinceramente, torço e acho que existe um ambiente bem propício para ser só um discurso. Se não for assim, vamos embicar para uma situação que é extremamente desagradável, que é a gente começar a flertar com os nossos vizinhos. Não vejo horizonte para virarmos a Venezuela ou a Argentina. Mas quando digo que começamos a flertar é o seguinte: começamos a inverter a curva e deixamos de ter PIB positivo, crescimento, para ter PIB negativo, e apontar para baixo toda a parte produtiva e tal. Mas como dizia a minha avó: ‘Dinheiro não aguenta desaforo.’

O que o mercado espera com Copa, Black Friday e Natal na mesma época?
Não vou perder a oportunidade da piada. Na Copa eu espero o crescimento de consumo de cerveja. A brincadeira acaba aqui, e olhando para o setor acho que a Copa vai atrapalhar um pouco, porque em dia de jogo do Brasil, às 13h ou às 16h, não tem negócio durante a tarde. E se o Brasil avançar à semifinal serão seis dias úteis.

Está pessimista então?
Estou tentando ser otimista, mas independentemente de Copa ou Natal, se não superarmos a questão da polarização teremos problemas. Com 49,9% ou sei lá 49,8% do País torcendo para o pior, tipo quanto pior melhor… Não tem economia que se sustente quando a metade das pessoas quer que não dê certo. Vinte por cento torcendo contra, tudo bem, mas metade contra, ninguém aguenta.

O que é preciso?
Quanto mais rápido a gente cicatrizar essa ferida que foi a fragmentação, melhor.

Alguns indicadores econômicos apontam que a economia está se recuperando. Outros dizem o contrário. Qual a sua opinião?
O fato é que a inflação no Brasil está em 5%, na Europa em 8% e em 10% nos Estados Unidos, onde nunca passou de 3%, 4%. Quando vamos para desemprego estamos em 8%, lembrando que a nossa média histórica sempre foi em torno de 10% [na última década variou de 5,5% a 14%]. Então, estamos bem nesse ambiente. Esses dois números são favoráveis até para o pessoal que está lá fora vir.

A chegada da gigante mexicana Kavak mexeu com o mercado?
Sempre falei para todo mundo do setor que eles [da Kavak] não eram uma ameaça como muitos imaginavam. Que a empresa iria se acomodar no mercado e seria mais um player. De tamanho muito menor do que imaginavam que seriam. Eles chegaram forte, com capital em dólar, em euro, estão entupidos até o queixo de carro e não conseguem vender pelo preço que compraram. Isso não quer dizer que vão dar errado. Vão continuar no mercado, mas num tamanho menor.

E quais os planos para o setor?
Temos cada dia mais buscado as melhores soluções para o mercado. Oportunidade de modernizar esse mundo. Mais do que tudo trazer para alguma formalidade, porque a gente sabe que praticamos uma informalidade de que não precisamos. Tem aquela história de botar o carro lá, esse carro não é meu, é do meu primo. Não cabe mais. Não dá mais para vivermos nesse rumo. O mundo já evoluiu. E hoje estamos muito mais expostos e vulneráveis a essas más práticas.