O artilheiro da primeira Copa

O artilheiro da primeira Copa

Updated: 2 months, 10 days, 19 hours, 23 minutes, 18 seconds ago

Alex Medeiros

Se havia um clima de guerra alterando os ânimos geopolíticos das nações, os velhinhos da FIFA tiveram a feliz idéia de uma batalha ludopédica que reunisse o melhor que existia da prática de futebol pelo planeta. E Montevidéu serviu de teatro das operações.

A Grande Depressão avançava pelo mundo como um monstro de mil garras naquele alvorecer de um tempo que a História perpetuaria como a “Década de 30”. Entre a quebradeira da bolsa de Nova York e a ascensão do nazismo, surgiu a Copa do Mundo.

Alguns anos antes de ser criada a primeira Copa, um adolescente argentino chegou ao trabalho com o corpo quente e enfraquecido por um estado gripal. Medicado na firma, foi orientado a repousar, mas no caminho de casa decidiu assistir um jogo de bola.

Seu time do coração, o Huracán, fazia um amistoso contra o tradicional San Lorenzo, e o garoto se aboletou nas arquibancadas. Antes de iniciar a partida, perceberam que um atacante do clube da casa estava ausente e um dirigente saiu em busca de substituto.

Percebeu nos degraus do pequeno estádio aquele moleque que já havia visto executando belas jogadas e fazendo gols nas peladas dos juvenis. De bate-pronto, convidou-o para atuar na vaga do faltoso e o rapaz salvou o Huracán com dois gols no empate de 2x2.

A proeza do jovem chegou aos ouvidos do seu patrão, que no dia seguinte o chamou no escritório da firma: “Na condição de torcedor, quero parabenizar-lhe e dizer que você joga muito bem o futebol, e por isso não pode trabalhar aqui. Está demitido”.

Foi assim, levando um chute na bunda que Guillermo Stábile resolveu vencer na vida chutando a bola e fazendo história na Argentina e na Europa. Logo estava no time titular do Huracán e durante dez anos, entre 1920 e 1930, foi seu principal artilheiro e ídolo popular.

Mas isso não significava que na seleção do país a posição era absolutamente sua, posto que na condição de matador nacional havia a figura do craque Roberto Cherro. E se em 1970 o Brasil achou um jeito de unir Pelé e Tostão, em 1930 era quase impossível algo similar.

Eram tempos de poucas inovações no futebol da América do Sul, que sequer tinha assimilado a novidade do sistema tático WM criado nos anos 20 pelo time do Arsenal de Londres. A ortodoxia dos técnicos só era quebrada pela inventividade do drible.

Daí que a Argentina foi disputar a primeira Copa do Mundo com Stábile na reserva de Cherro, o que acabou provocando aquilo que a seleção brasileira viu acontecer em 1958 com os reservas Garrincha e Pelé assumindo os destinos do ataque e dando show.

Cherro jogou a primeira partida na vitória de 1 x 0 sobre a França, mas o seu preparo físico um tanto irregular e uma contusão logo o tiraram do time. E Stábile entrou a partir do segundo jogo, arrasando com três gols em cima do México, na goleada de 6 x 3.

Pena que aquela primeira Copa foi muito curta, o que impediu que o artilheiro platino repetisse em maior escala o que estava acostumado a fazer nos gramados argentinos. Mas saiu de Montevidéu como maior goleador e, para muitos, o craque do torneio.

Guillermo Stábile surpreendia os zagueiros com uma espetacular velocidade, tocando com habilidade a bola nas disputas e vencendo seus marcadores com dribles que levantavam a audiência. Tal estilo lhe impôs o apelido de “El Filtrador” (o infiltrador).

Ao término do evento, vencido pela maravilhosa seleção uruguaia, que já havia encantado o mundo conquistando a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1924 e 1928, Stábile foi disputado sofregamente por clubes italianos, sendo contratado pelo Gênova.

A chegada no famoso porto da cidade, um dos mais tradicionais do Mar Mediterrâneo, foi uma cena apoteótica, com uma multidão gritando o nome do jogador. Na estréia, massacrou a defesa do Bologna com três gols nos primeiros trinta minutos de jogo.

O futebol de Guillermo Stábile compôs o rosário de mitos que marcaram os anos 30, como a beleza exuberante de Greta Garbo e os sapatos Ferragamo. Os jornais se excediam nos clichês a respeito do craque baixinho que tinha um gigantesco talento.

O time do Nápoles, que meio século depois enlouqueceria a cidade homônima com Maradona, contratou Stábile na temporada 1935-36, o goleador já com 31 anos. Em 1939, quando estourou a Segunda Guerra, encerrou carreira no Red Star da França. A força do seu estilo ainda produziu manchetes assim “La Nouvelle Idole de Paris”.